Antigos do Cabo: turismo, pertencimento e memória no mundo virtual

Por *Max Prates

No último mês de abril, um jornal de grande circulação aqui da região da Costa do Sol publicava matéria de uma queridíssima amiga sobre um grupo público do Facebook denominado Antigos do Cabo, administrado por um dos filhos do já falecido Reinaldo Martins Fialho, conhecido e respeitado historiador autodidata do município de Arraial do Cabo (RJ). Pautado por essa colega de profissão, decidi pela construção do texto que agora apresento e começo com uma pergunta seguida de sua respectiva resposta: o que o grupo Antigos do Cabo tem a ver com turismo? “Muita coisa”, diria um típico cabista, como são chamados os nascidos no município.

O sociólogo francês Maurice Halbwachs, notabilizado por suas pesquisas sobre memória coletiva, a define como um “processo social de reconstrução do passado vivido e experimentado por um determinado grupo, comunidade ou sociedade.” Por sua vez, a apropriação e a geração de conteúdos através das redes sociais, na internet, na pós-modernidade, vêm desenhando uma nova configuração de memória coletiva e (ou) individual sobre as mais diferentes localidades, sejam elas turísticas ou não. Arraial do Cabo, vista sob a perspectiva arquitetônica, urbanística ou cultural, já não é mais a mesma cidade e a ressignificação das experiências e fatos ali vividos a 50, 70 ou mais anos atrás vai sendo (re)elaborada a partir da narrativa e mediação virtual daqueles que as vivenciaram.

Seja para os cabistas, moradores mais antigos ou até mesmo para as pessoas que pouco ou sequer conhecem Arraial, podemos dizer, dentro desse contexto, que o Antigos do Cabo funciona como um grande city tour cultural virtual pelo município, possibilitando a cada post uma fantástica viagem pelo seu rico e particularíssimo universo de histórias, causos, hábitos, folclore e, principalmente, pelo mais que peculiar jeito de ser, ver e viver a vida de lendárias figuras como Bebeco, Apúlio, Gorgulho, Bengo, Vélo e Loty, entre muitos outros.

Interessante é que em tempo de fakenews (notícias falsas), onde as redes sociais são leviana e criminosamente utilizadas para tentar derrubar governos e abalar reputações, o grupo tem sido, na maioria das vezes, um curioso e pacífico espaço de participação social, agregando até mesmo pessoas que pouco acessam a internet ou têm notória aversão ao Facebook, mas que “vicia tanto que só entro no Face por causa do grupo…”, como li outro dia. Ouso dizer também que, do ponto de vista iconográfico, o grupo Antigos do Cabo é uma grande galeria de arte virtual, permanentemente retroalimentada pelo suprimento do passado e do novo através de seus curadores, os próprios membros do grupo, que aproveitam as oportunidades de “visitação” para relembrar bons momentos vividos, exaltar o seu orgulho de ser cabista e reforçar ainda mais uma relação de pertencimento com a sua terra que aparentemente se perdera.

Além do mais, para mim e para muitos colegas que também são Guias de Turismo, realizar esse tour virtual é como ler as páginas de um livro de múltiplos autores que, de tão fascinantes quantos os seus relatos, a gente não quer largar e que acaba servindo como excelente fonte de pesquisa, agregando valor ao nosso serviço quanto ao propósito de gerar encantamento no turista. Para deixar um pouquinho de água na boca, encerro aqui com a rápida e deliciosa história (ou seria um causo?) de uma conhecida figura que tentava ganhar uma graninha com o turismo náutico no município e usou como estratégia de venda uma placa pintada com os seguintes dizeres: “passeio de barco com vista para o mar.” Até a próxima!

Jornalista, Guia de Turismo e mestrando  em Ecoturismo e Conservação.

 

 

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