Provando do próprio veneno

Por *Max Prates

Desde que comecei a dar os primeiros passos nesse fascinante mundo do turismo, por volta de 1994, escuto a máxima de que o turista precisa ser muito bem tratado no destino receptor que ele escolheu para visitar, seja a lazer, trabalho ou qualquer outra motivação. Obviamente que não discordo, afinal quem gosta de ser maltratado, independentemente de estar viajando? As justificativas para um bom receptivo são várias e vão desde o pertinente lugar comum “quem é bem atendido sempre volta” até aquela que, de fato, é pano de fundo e impulsiona esse mesmo argumento mercadológico: movimentar a economia do destino receptor com a consequente geração de lucro para o seu respectivo trade turístico.

Se por um lado somos comumente lembrados no exterior por sermos um país com altos índices de violência urbana e contra o turista, nós, brasileiros, também habitamos o imaginário coletivo gringo como um povo acolhedor, simpático e hospitaleiro com quem vem de fora. Mas como se dá o processo inverso? Como os turistas brasileiros costumam tratar os destinos que visitam ou como lá se comportam, independente da razão que os tenha levado a esses lugares? Sem generalizações, vou tomar como objeto de minha análise fatos bem pontuais e recentes ocorridos logo no início da Copa do Mundo, um dos maiores e mais importantes eventos esportivos globais e que nesse exato momento encontra-se a pleno vapor na Rússia.

Na terra de Vladimir Putin e Dostoiévski, vídeos de um grupo de marmanjos tolos e de um funcionário de uma companhia aérea – todos brasileiros – se aproveitando do desconhecimento de algumas mulheres em relação ao nosso idioma para constrangê-las ganharam as redes sociais e o noticiário nacional e internacional, com uma péssima repercussão obviamente. Afora o teor machista e misógino que tais situações ensejam, elas alcançam maior gravidade ainda pois um dos envolvidos, além de advogado, já foi secretário de Turismo, Esporte e Cultura do município de Ipojuca, na região metropolitana de Pernambuco. Um outro, que trabalhava no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, na Grande São Paulo, foi demitido da companhia aérea Latam após os reflexos negativos do caso.

O que leva tais pessoas a comportamentos como esses? Vários são os fatores, mas destacaria alguns. Inicialmente, suponho que nessas situações específicas o Brasil pode estar “provando do próprio veneno”, como diz o dito popular. Explico: a imagem que um destino procura construir a respeito de si próprio é uma das variáveis que influenciam os fluxos turísticos em relação a ele. Uma análise mais minuciosa do material publicitário divulgando nosso país lá fora, entre 1970 e 1990, apresentava ostensivamente a sensualidade de nossas mulheres e do Carnaval como nossos principais produtos. Não coincidentemente, foi nesse mesmo período que começamos a nos consolidar negativamente também como polo mundial de turismo sexual, ao lado de países como Tailândia e Filipinas, sobretudo no que tange à exploração de crianças e adolescentes, sendo a região Nordeste um dos locais mais procurados para tal fim.

Novamente não irei generalizar, mas um país que coloca sua infância, juventude e mulheres na vitrine para consumo dessa maneira, somado ao atavismo cultural de nosso “DNA” latino-americano machista, não só estimula a violência e abusos contra crianças e mulheres como gera no tecido social uma enorme permissividade em relação a esses comportamentos, ou seja, pessoas que não respeitam as leis e as regras mínimas de convívio e tolerância, agindo em outros países como se estivessem num baile carnavalesco daqueles mais chinfrins. Isso tudo, junto com a impunidade que assola o nosso país em todas as esferas, produz outrossim o efeito inverso: estrangeiros que chegam ao Brasil achando que tudo podem por aqui, afinal quem não se lembra do caso nadador americano Ryan Lochte e seus baderneiros colegas de piscina durante as olimpíadas do Rio, em 2016?

Mas vejo progressos nesse sentido já que tanto no caso de Lochte quanto em relação ao que ocorreu na Russia houve uma grita geral e a busca por responsabilização e punição dos culpados. Contudo, acredito que nos falte ainda também um maior engajamento de agências e operadoras de turismo e campanhas governamentais mais vigorosas no sentido de estimular e orientar boas práticas comportamentais de turistas brasileiros quando em viagens ao exterior. Até a próxima!

Jornalista, Guia de Turismo e mestrando  em Ecoturismo e Conservação.